21 de mai de 2015

Desmonte do Citroën C4

Desmonte do Citroën C4

Com o motor do C4 Lounge em temperatura de trabalho, nosso consultor técnico e responsável pelos desmontes, Fabio Fukuda, inicia os primeiros exames. Tudo certo com pressão de óleo e combustível e também com a pressão de compressão dos cilindros: do primeiro ao quarto, na ordem, estavam com 200, 210, 206,66 e, de novo, 206,66 psi – números obtidos da média de três medições. Todos acima do mínimo estabelecido pela Citroën (190 psi) e com variação muito aquém dos 72,55 psi estabelecidos como diferença máxima tolerável. Com a retirada do cabeçote, chamou atenção o acúmulo de carvão nas válvulas do cilindro 1. “As dos demais cilindros estavam com nível de sujidade compatível com a quilometragem”, diz Fukuda. Como nenhuma irregularidade foi detectada na análise dos retentores de válvulas nem na medição de folga de entrepontas dos anéis de compressão dos pistões, nosso consultor concluiu: “Com retentores e anéis em ordem, a contaminação das válvulas de um único cilindro pode ser atribuída a um funcionamento irregular do bico injetor de combustível. Tudo indica que, por algum tempo, o injetor do cilindro 1 travou aberto, enviando combustível em excesso, o que levou à formação de mais carvão nas válvulas”. Aqui, vale lembrar: na revisão dos 20 000 km, a concessionária Saint Honoré trocou, em garantia, um jogo completo de bicos. DEVORADOR DE FREIO
Se a questão do motor não preocupa tanto – afinal, a rede detectou e sanou o problema –, a desmontagem dos freios indicou falhas graves. Apesar de substituídos aos 30 000 km (voltaremos a falar disso um pouco mais adiante), discos e pastilhas chegaram aos 60 000 km com medidas muito abaixo daquelas que a Citroën aponta como mínimas toleradas. “A parte metálica de uma das pastilhas chegou a usinar uma das faces do disco. Nela, praticamente não havia mais material de atrito”, diz Fukuda. Falha da concessionária Ok Paris, que, ao realizar a quinta revisão, não inspecionou os freios – ou, se o fez, errou ao não nos avisar da proximidade do fim da vida útil dos componentes. O resultado é que, ao longo de 60 000 km, nosso estradeiro Citroën devorou dois conjuntos de disco e pastilhas dianteiros, deixando uma lição para outros donos de C4, sobretudo para aqueles que rodam na cidade, onde o consumo de freio é maior: ao deixar o carro na revisão, é preciso pedir ao técnico especial atenção ao sistema, pelo menos a cada 20 000 km. Pastilhas e discos novos custam R$ 401 e R$ 707, respectivamente. A troca sai por R$ 190. ÁGUA A BORDO
Com componentes trocados ao longo dos 60 000 km, suspensão e alimentação (acima) terminam o teste aprovados, mas com ressalvas. Na mesma condição fica a carroceria, que deixou entrar água na região próxima do motorista, em um dia de chuva forte. “O problema estava na vedação do assoalho com a caixa de ar lateral”, anotou Fukuda em seu relatório final. Mas o técnico fez questão de ressaltar: “As guarnições de borracha de portas e porta-malas deixaram poeira e água do lado de fora”. Este que vos escreve também pede licença para elogiar a carroceria: “Fiz uma viagem entre Brasília e São Paulo quase toda sob chuva e nem sinal de entrada de água. Creio que o problema só ocorreu por uma infeliz coincidência da posição do carro com o ângulo e intensidade da água. De qualquer maneira, é claro que não deveria ter ocorrido”. Por causa da baixa durabilidade, o freio é destaque entre os sistemas reprovados. Faz companhia para ele o par de rolamentos dos cubos de roda traseiros. “Como havia uma anotação no diário de bordo informando sobre ruído de rodagem, aproveitei a viagem-teste que faço antes de cada desmonte para confirmar a reclamação. De fato, o barulho vinha dos rolamentos”, diz Fukuda. Diante de nossas vias tão malconservadas, não é de espantar a falência dos componentes, mas a ausência de casos similares no histórico de desmontes prova que a indústria já é capaz de produzir rolamentos capazes de resistir mais do que os 60 000 km do nosso teste. SUSTENTABILIDADE
Por outro lado, coxins de sustentação do motor e do câmbio do C4– itens que em outros carros desmontados não raramente fadigam antes dos 60 000 km – se revelaram íntegros. Sem deixar qualquer registro de falha de funcionamento na central eletrônica, o câmbio automático não foi desmontado. Ainda assim, foi analisado. “Sempre verifico o óleo da transmissão com atenção redobrada. Problemas de funcionamento dos componentes internos quase sempre geram partículas metálicas ou sinterizadas, mas, neste caso, o lubrificante estava como novo”, diz Fukuda. Ainda que algumas reclamações de solavancos tenham sido anotadas no diário de bordo, em especial na segunda metade do teste, a transmissão do Lounge, com seis marchas, se mostrou bem menos problemática do que a do C4 Pallas, com quatro. Em janeiro de 2014, quando o C4 Lounge foi incorporado à frota de Longa Duração, dissemos que, ao fim da jornada, teríamos a oportunidade de aferir a capacidade de evolução da marca, uma vez que o modelo se apresentava como substituto natural do C4 Pallas, integrante da frota desmontado em 2009. REDE FURADA
Como visto, a rede ainda não dá motivos para a marca comemorar. Melhorou ao eliminar de vez o péssimo hábito de tentar empurrar nos clientes serviços desnecessários, mas, assim como com o Pallas, agiu em desacordo com o plano de manutenção estabelecido pela fábrica. E as consequências vieram. Na quarta revisão, a autorizada Louvre deixou de trocar o filtro de combustível e, na quinta parada, a Ok Paris alegou ter trocado as duas bandejas da suspensão dianteira, mas, na vistoria que realizamos sempre que um carro de Longa sai da manutenção, descobrimos que apenas a do lado direito era nova. Porém, nenhuma revisão foi tão polêmica quanto a terceira. Ao deixarmos o C4 na TGV, pedimos uma verificação especial dos freios, pois o editor Ulisses Cavalcante havia notado, quase aos 30 000 km, uma aspereza típica de fim de pastilha. Na TGV, o repórter visual Eduardo Campilongo afirma ter visto saltar na tela do computador, após a técnica digitar a placa de nosso carro, um aviso de que o veículo estava em teste pela revista QUATRO RODAS. Tanto a assessoria de imprensa da TGV como a Citroën negaram a existência do alerta. Aqui, vale lembrar a importância da marcação das peças assim que um novo modelo é incorporado à frota. Na oficina Fukuda Motorcenter, os principais componentes, partes e peças de cada novo automóvel recebem uma marcação indelével, o que nos permite detectar peças trocadas sem autorização prévia. Ou seja, ao cobrir de cortesias um carro de QUATRO RODAS, em vez de agradar, o máximo que uma concessionária pode conseguir é demonstrar falta de confiança em seu próprio produto. Estranhamente, nosso carro saiu da TGV com buchas de bandeja e discos e pastilhas de freio novos, tudo trocado em garantia e sem custo. Uma fonte ligada à Citroën conta: “Depois desse episódio, publicado na edição de setembro de 2014, a rede reportou à marca diversos casos de clientes que, com a reportagem em mãos, se negavam a pagar por discos e pastilhas em seus C4. Não teve jeito: a fábrica bancou a troca em garantia”. Confortável e bom companheiro de viagem, o C4 sempre justificou o sobrenome Lounge com sua cabine aconchegante e espaçosa. E também recebeu elogios dos 27 motoristas que se revezaram ao seu volante pela vastidão e facilidade de acesso ao porta- malas de 450 litros e bom pacote de equipamentos. Apesar das ressalvas, o produto se aposenta aprovado. A rede, porém, por pouco (e de novo) não pôs tudo a perder.
APROVADAS Componentes do bloco e coxins terminaram o teste em ótimo estado PISTÕES, BIELAS E ANÉIS


As bronzinas se mostraram isentas de sinais de déficit de lubrificação. O acúmulo de carvão nos pistões era compatível com a quilometragem. Os anéis de compressão estavam com folga de entrepontas dentro do especificado como máximo pela Citroën. COXINS


Não raramente, o desmonte revela coxins desgastados, com a borracha rompida ou ressecada. No caso do Lounge, as três peças chegaram aos 60 000 km
em estado de novas. CORPO DE BORBOLETA


O ótimo estado do corpo de borboleta é prova de que o sistema de recirculação de gases e o fltro de ar deram conta de deixar os contaminantes longe do motor. VIRABREQUIM


Também chamado de árvore de manivelas, o virabrequim chegou ao desmonte incólume. Os cinco munhões e os quatro moentes estavam dentro dos
limites determinados pela Citroën, da mesma forma que a folga axial da peça.
ATENÇÃO Se você também tem um C4, fique atento à suspensão e aos bicos injetores CARROCERIA


Sinais de umidade e acúmulo de sujeira entre o assoalho e a caixa de ar esquerda indicam o ponto de entrada de água. Mas é preciso destacar: as guarnições de borracha das portas cumpriram seu papel. SUSPENSÃO

Entre reapertos e trocas de componentes, nosso C4 passou por ao menos três ações da rede ao longo dos 60 000 km. Buchas de bandeja foram condenadas duas vezes. BICOS E VÁLVULAS

Travado, o bico do primeiro cilindro levou à troca precoce (em garantia) do conjunto, aos 20 000 km. Ao despejar mais combustível do que deveria, ele levou a um severo acúmulo na válvula de admissão do primeiro cilindro.
REPROVADAS Freios desgastam muito rápido. Eles e os rolamentos não aguentaram 60 000 km DISCOS E PASTILHAS DE FREIO

O C4 demonstrou ter um apetite voraz por discos e pastilhas de freio dianteiros. Mesmo com rodagem rodoviária superior a 60%, ambiente no qual o consumo de freio é menor, o modelo exigiu duas trocas do conjunto ao longo de 60 000 km. Para piorar, trata-se de uma manutenção cara: R$ 1 298, com
peças e mão de obra. ROLAMENTO

Quase no fim do teste, os usuários passaram a reportar ruídos de rodagem. No desmonte, a identificação dos responsáveis: os rolamentos das
rodas traseiras.
PRINCIPAIS OCORRÊNCIAS 5 508 km Parafuso solto abaixo do assento do banco traseiro

7 289 km Fixador central da capa do para-choque traseiro solto

9 019 km Freio sem assistência logo após a partida do motor

9 378 km Banco do motorista com folga longitudinal e ruído

9 504 km Retrovisor direito rangendo ao ser rebatido

11 034 km Alavanca de regulagem de altura do banco do motorista travada

11 079 km Disparo involuntário do alarme do cinto do motorista

12 220 Cânister solto ao passar em poça d’água

15 289 km Painel ruidoso e retrovisor esquerdo rangendo ao ser rebatido

15 318 km Sidebag direito e vidro do motorista ruidosos

16 629 km Banco do motorista com rangido entre couro e plástico

20 008 km Troca de bicos e velas de ignição

26 722 km Vibração durante as frenagens

30 017 km Troca de discos, pastilhas e buchas de bandeja

53 923 km Sensor de chuva falhando

59 888 km Ruído de rolamento


FICHA TÉCNICA

Motor: fex, dianteiro transversal, 4 cil., 1 998 cm³, 16V, 85 x 88 mm, 10,8:1, 151/143 cv a 6 250 rpm, 21,7/20,2 mkgf a 4 000 rpm
Câmbio: automático, 6 marchas, tr. dianteira
Direção: eletro-hidráulica, 11,1 m (diâmetro de giro)
Suspensão: independente, McPherson (diant.), eixo de torção (tras.)
Freios: disco vent. (diant.), disco sólido (tras.)
Pneus: 225/45 R17
Peso: 1 398 kg
Peso/ potência: 9,3/9,8 kg/cv
Peso/torque: 64,4/69,2 kg/mkgf
Dimensões: comprimento, 462 cm; largura, 179 cm; altura, 150 cm; entre-eixos, 271 cm; porta-malas, 450 l; tanque de combustível, 60 l
Equipamentos de série: ar-condicionado digital bizona, direção eletro-hidráulica, computador de bordo, rodas de liga leve aro 17, controle de estabilidade e tração, retrovisores externos com rebatimento elétrico.


FOLHA CORRIDA

PREÇO DE COMPRA R$ 73 780 (janeiro/14)
QUILOMETRAGEM TOTAL 60 290 km – 38 400 km (63,7%) rodoviário – 21 890 km (36,3%) urbano
COMBUSTÍVEL LITROS DE ETANOL 9 233,7
CUSTO (R$ 19 216,89)
CONSUMO MÉDIO 6,5 km/l
REVISÕES
10 000 KM: R$ 400 (Lyon)
20 000 KM: R$ 684 (Saint Honoré)
30 000 KM: R$ 624 (TGV)
40 000 KM: R$ 756 (Louvre)
50 000 KM: R$ 756 (Ok Paris)

PEÇAS EXTRAS ÀS REVISÕES

Alinham., balanc. e rodízio – R$ 814; reparo de roda – R$ 260; 5 pneus – R$ 2 720
CUSTO POR 1 000 KM: R$ 435,08




VEREDICTO

O Pallas nasceu para brigar com Civic e Corolla. Não conseguiu. O tempo passou e a Citroën lançou o C4 Lounge. Mas, quando ele chegou, o segmento estava inundado de rivais. Um deles, o Cruze, já esteve no Longa Duração e saiu de cena muito mais bem-avaliado. Mas é preciso lembrar: a rede, continua sendo o grande problema da Citroën. Deixou de sugerir serviços desnecessários, mas abandonou também os essenciais para a saúde do carro.


Com o motor do C4 Lounge em temperatura de trabalho, nosso consultor técnico e responsável pelos desmontes, Fabio Fukuda, inicia os primeiros exames. Tudo certo com pressão de óleo e combustível e também com a pressão de compressão dos cilindros: do primeiro ao quarto, na ordem, estavam com 200, 210, 206,66 e, de novo, 206,66 […]

Fonte: 4 Rodas Longaduração
Categoria: Citroën C4 Lounge
Autor: Redação
Publicado em: 21 May 2015 13:00:20

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